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Como foi a primeira apresentação da ópera-rock dos Titãs

Banda se arriscou em formato novo e temas-tabu no espetáculo Doze Flores Amarelas que estreou no Festival de Curitiba nesta terça (03)

  • Sandro Moser
  • 04/04/2018
  • 10:51
Como foi a primeira apresentação da ópera-rock dos Titãs Com o quinteto atual e as três atrizes cantoras, os Titãs voltaram a ser oito em Curitiba. Fotos: Pri Oliveira.
Estreia Titãs Estreia Titãs

Estupro, banalização da violência, uso tóxico da internet e redes sociais, relações familiares vazias, suicídio, machismo, abuso de drogas, macumba digital e algum rock’n roll.

Parece que não há problema ou tabu contemporâneo que não seja alcançado por Doze Flores Amarelas, a ópera-rock criada pelos Titãs e mostrada pela primeira vez em público na noite desta terça-feira (3), no Teatro Guaíra, no Festival de Curitiba.

Antes de apagarem as luzes, o experiente diretor Hugo Possolo subiu à boca de cena e avisou o público que se tratava de um “ensaio aberto”, portanto ainda que já fosse o espetáculo completo, não estaria à prova de falhas e algum número poderia ser interrompido para ajustes (o que de fato aconteceu, num momento tragicômico que serviu para quebrar o gelo e melhorar o final da peça).

Possolo dividiu a direção com Otavio Juliano e o argumento com o três Titãs remanescentes – Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto. além do escritor Marcelo Rubens Paiva. A narração em off é de Rita Lee (mãe do guitarrista Beto Lee e do baterista Mario Fabre que completam a atual formação dos Titãs). A produção musical é de Rafael Ramos, experiente produtor do álbum O Circo Está Armado, da Relespública, e o descobridor dos Mamonas Assassinas.

Vários nomes, portanto, com muitos anos de estrada num mesmo projeto de formato pouco tentado no Brasil. Esta ousadia geral e, principalmente dos Titãs que podiam empurrar a vida com a barriga fazendo a cada dois anos a turnê revival de um dos álbuns que lançaram há trinta anos, é o grande mérito de Doze Flores Amarelas.Há outros (em meio a alguns desacertos também), mas os caras resolveram dar a cara ao risco artístico em um terreno novo e perigoso.

Meio-termo

Isto posto, no final das quase três horas de montagem a prometida ópera-rock fica no meio do caminho entre um show cênico e uma peça musicada em que algumas faltas são muito sentidas.  Faltou melhor conexão entre as canções e cenas na construção da narrativa fosse com algum recurso como música pré-gravada, efeitos sonoros ou de cenografia de palco. Ainda que algumas soluções e ideias de cenas sejam muito boas.

A peteca nunca pode cair numa boa montagem de ópera. E o público de teatro brasileiro, que hoje consome muitos musicais, talvez não tenha a paciência condescendente que o de Curitiba teve em sua vocação para o aplauso fácil (curioso que a fama da cidade sempre foi oposta).  Aliás, a maior parte da plateia quase lotada permaneceu até o final e aplaudiu bastante o espetáculo.

Para a dramatização também fez falta a presença do último Titã a deixar o barco, Paulo Miklos, o ator puro-sangue entre os oito originais. Deve-se destacar, contudo, o esforço da banda toda em encarnar os personagens e a presença das atrizes e cantoras Corina Sabba, Cyntia Mendes e Yás Werneck, com performance interessante de canto, dança e expressão corporal.  

O som da banda cru e quase sem efeitos também ficou pequeno em um teatro gigante como o Guairão.

Faltou, sobretudo, uma grande canção, o momento auge, a aria principal, entre as 20 e tantas compostas e tocadas pelos Titãs. Pensando nas peças históricas do rock opera que serviram de inspiração à banda faltou aquela canção para levar pra casa. Mas, devemos admitir que escrever uma grande canção pop é quase um milagre.E entre os 25 temas novos compostos algns como Disney Drugs ou a canção título cheguem perto. E que seja injusto comparar o material novo com as quatro décadas de obra dos Titãs.

Macumba digital

O libreto trata de três amigas que recém ingressas em uma faculdade fazem o que toda menina de sua idade faz: vão a uma festa para se integrar e se divertir.

Elas são estupradas por colegas e cada uma lida com violência de um jeito diferente, até o momento que elas se unem para uma redentora vingança real e virtual, em uma espécie de “trabalho” digital em um aplicativo que simboliza tudo que há de perverso na internet.

É curioso que o argumento muito contemporâneo do universo dos “jovens adultos” tenha sido a história escolhida pelos roqueiros cinquentões, que como “tiozões” das protagonistas às vezes conseguem dar a mensagem certeira e dentro do atual zeitgeist, mas noutros se perdem em algumas platitudes juvenis.

Ainda que irregular e pedindo alguns ajustes, a primeira experiência dos Titãs em seu novo projeto teve o valor de sua ousadia, no tema e no formato. E agora deixa a banda exposta a crueldade digital que ela criticou no palco, num ciclo que faz sentido com a proposta da peça.

Doze Flores Amarelas será levada ao palco novamente hoje às 21h, no Teatro Guaíra.

 

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