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Baladas e bares de Curitiba deixam de cobrar couvert artístico

Empresários relatam que as causas são o efeito prolongado da crise econômica no país e o aparecimento de novos empreendimentos

  • Sandro Moser
  • 09/03/2018
  • 08:25
Baladas e bares de Curitiba deixam de cobrar couvert artístico Noite de rock no Sheridan's Irish Pub: dançando conforme a música do mercado. Foto: arquivo Gazeta do Povo.

Nos últimos meses, não cobrar entrada ou couvert artístico surgiu como tendência de mercado das casas noturnas e bares que abrem palco para bandas ao vivo – principalmente de rock ou MPB - em Curitiba. A prática está transformando o cenário local. Empresários relatam que as causas são o efeito prolongado da crise econômica no país e o aparecimento de novos empreendimentos. O que leva casas tradicionais de Curitiba a repensarem suas gestões e também afeta diretamente o mercado dos músicos profissionais.

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Para Fábio Aguayo, presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar-PR), a prática é um relfexo do livre mercado. "A entidade apoia a livre iniciativa, a qualidade de atendimento e serviços e preços justos aos clientes", diz.

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Um dos fatores que disseminaram a tendência em não cobrar ingresso para atrações ao vivo foi a ascensão dos polos gastronômicos como o Distrito 1340, o Mercado do Sal, a Mercadoteca e outros, que reúnem vários bares e outros empreendimentos em condomínio e não cobram ingresso dos clientes.

“Nossa ideia é a preocupação total em melhorar a experiência do cliente. Não queremos que ele sofra para estacionar, não queremos ele na fila, nem fazendo cadastro. Queremos facilitar o pagamento e a saída”, explica Fernando Donnabella um dos sócios do Distrito 1340, no Seminário, e defensor da entrada gratuita.

Para Donnabella, o modelo de negócios é o diferencial: o condomínio faz rateio entre os bares e consegue pagar bons cachês às bandas. “Acabou virando uma referência. No domingo consigo colocar mil pessoas. Se cobrasse 20 reais, não sei como seria”, disse.

Apontado como pioneiro deste modelo de gestão, o Claymore Higway Bar, no Capão Raso, dedicado ao nicho “rock e motociclismo” tem explicação parecida para não cobrar entrada.

Segundo o proprietário Darli Boarin, a prática faz parte da identidade do bar, ainda que cobre entradas quando contrata uma banda internacional ou de outros estados.

“Pelo tamanho da casa, o fluxo de pessoas que a gente consegue e o perfil do nosso público, conseguimos diluir os custos sem cobrar preços aviltantes para nossos clientes”, disse.

Boarin sabe que sua postura tem recebido críticas de colegas empresários do setor, mas lembra de outras casas que fazem o mesma coisa - recentemente, o Dobrucki, bar que tem perfil semelhante, adotou a entrada gratuita. O empresários disse que sua estratégia é “um jogo válido de mercado e que o bar tem uma proposta popular contra a elitização”. “Algumas casa têm outro tamanho e proposta que às vezes não permitem fazer a mesma coisa”, avalia.

Esta tendência tem influenciado outras casas noturnas para se adequar ao novo modelo. Um dos bares mais tradicionais da cidade, o Sheridans Irish Pub, no Batel, reduziu o valor da entrada em até 75% em algumas noites de música ao vivo.

"Não há milagre"

Gustavo Haas um dos sócios do bar, explica que a casa tem feito o possível para se adaptar ao momento e ao contexto de crise econômica do país. “Temos que estar sensíveis às necessidades dos nossos clientes e dançar conforme a música, porém sem abrir mão da qualidade do nosso atendimento. Nós estamos dando espaço para bandas mais novas, o que por um lado é bom”, disse.

Haas observa, porém, que este tipo de política de preços pode prejudicar toda a cadeia produtiva em médio prazo. “Me parece que há um aumento de oferta sem aumento de demanda. A música sempre foi um dos nossos produtos e para que ela chegue com qualidade ao cliente precisamos de boa equipe, estrutura e músicos bem pagos”, explica.

Para ele, esta cultura pode criar um cenário de desvalorização e desemprego em pouco tempo. “Não há milagre. Em algum lugar o empresário precisa cortar para manter o empreendimento funcionando”.

Outro bar que teve que se adequar ao novo momento do mercado é o tradicional Seba’s Rock Bar, no Boqueirão.

“Antigamente todos os bares cobravam entrada e ninguém se importava de pagar. Cheguei a ter três bandas por noite”, disse o proprietário Sebaldo Sabatke. Ele aponta que, no entanto, o advento dos grandes bares obrigaram a mudança da gestão. Sebaldo criou “combos” com preços que valem pela entrada e open food das especialidade da casa como a carne de onça ou choripan, em alguns dias da semana.

“Assim a gente consegue ficar bem, mas já não coloco bandas toda noite. Chamo um artista sozinho para fazer uma apresentação acústica ou coloco dj’s." A casa ainda cobra ingresso quando recebe artistas como a lendária banda progressiva brasileira Casa das Máquinas, nesta sexta (9) com entrada a R$20.

Sebaldo concorda que a entrada gratuita pode ser um “tiro no pé”, em médio prazo. “No começo é um triunfo, depois desvaloriza o produto", diz.

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