Clima soturno. Tempo chuvoso. Frio. Atmosfera de filme B com personagens e figurantes malucos de todo gênero.

O resumo acima geralmente é parte da explicação sobre o fato de Curitiba ser a cidade mais importante do Brasil e uma das mais quentes do mundo para o a música psychobilly. Ainda que tudo seja verdade, não é o bastante para explicar porque somos a capital do gênero no país. Entre os dias 9 a 12 de fevereiro, Curitiba receberá a 19ª edição do Psycho Carnival, o mais importante festival do país.

Neste ano, o PC vai reunir 24 bandas - 14 nacionais e 10 gringas - em quatro dias. Destaque para a última apresentação dos holandeses do Frantic Flintstones, para o show dos precursores ingleses Batmobile e do show extra da reunião dos Catalépticos, o principal nome da ruidosa cena curitibana.

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De acordo com Vlad Urban, guitarrista e vocalista das bandas Sick Sick Sinners e Catalepticos, além de organizador do evento, veremos uma das melhores escalações da história do carnaval dos psycho.“São alguns dos melhores shows possíveis. Além dos nomes principais a grandes bandas brasileiras e algumas bandas da cena América Latina que está se fortalecendo de países como Colombia, Argentina e Paraguai”.

O que é o psychobilly? 

Subgênero que deve a sua nomenclatura indiretamente a um trecho da canção “One Piece at Time”, de Johnny Cash, o psychobilly gosta de ser tratado como um “filho bastardo” do rock. Trata-se basicamente da fusão entre o rock primitivo dos anos 1950 (rockabilly) e a fúria e a sordidez do punk.

Nascido no fim dos anos 1970, na Inglaterra, o psychobilly se distingue pela da sonoridade peculiar, definida pela velocidade dos andamentos em geral dada por baixos acústicos e baterias simples e por uma circunstancia estética que envolve a música ao incorporar elementos do universo dos filmes de terror B e trash, com seus monstros, seres do espaço, mulheres fatais, alucinações e zumbis.Não por acaso, a zombie walk é um dos principais eventos paralelos.

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Ortodoxia psycho

O estilo chegou ao Brasil em meados dos anos 1980 com a banda paulista Kaes Vadius e na mesma época começou a dominar o underground de Curitiba. Para o músico e professor universitário Márcio Tadeu Gouvea, autor do livro “Terapia com Sequela – Rock Maldito, o Psychobilly Visto por Dentro” o marco zero em Curitiba foi o surgimento da banda Os Missionários em 1986. Para ele, a primeira banda a ir “além do punk e partiu para um psychobilly bastante original e de muita identidade”. Sem saber ainda, Os Missionários formataram o estilo que anos mais tarde transformariam a cidade em polo desta vertente na América Latina.

Segundo Marcio Tadeu, a “ortodoxia” da criação musical curitibana é quem faz a grande diferença. “Existe uma originalidade peculiar, densa, de difícil explicação”, teoriza.Para Vlad Urban, esta ortodoxia se explica como a característica que tanto as bandas como os fãs curitibanos tem de irem um “pouco mais fundo” em suas predileções.“O psychobilly é um estilo muito especifico que escapa das vertentes generalistas que ocupam todo o espaço na mídia. E o curitibano gosta de se especializar, de ser ortodoxo. Aqui, as bandas de metal fazem o metal mais extremo. Os punks tentam fazer o som mais podre. As bandas esquisitas são mais esquisitas que as outras. Isto também fica claro na ligação do psychobilly com Curitiba. O nosso, é o mais pesado.”

Psycho profissional

Porém, só o território e o “jeito de fazer” ainda não explicam a solidez e a longevidade da cena local do psycho.De acordo com o músico e produtor Wallce Barreto, uma das razões do sucesso se deve ao fato de Curitiba conseguir desenvolver uma cena bastante profissional, desde as bandas à organização dos eventos.

Fundador do Psychobilly Fest, cuja primeira edição ocorreu em 1996, conta que os primeiros festivais foram feitos por “intuição e quase sem informação”. Só mais tarde a cidade se descobriu parte de um movimento mundial.“Quando a internet possibilitou a interação com outras bandas, outras pessoas que queriam se encontrar, a cena daqui acabou chamando a atenção de pessoas de outros lugares do mundo”.

Para Barreto, um fator final de sucesso do subgênero na área dos pinheirais é que ainda que seja uma vertente de nicho próprio, o psychobilly deixa janelas abertas para fãs de outros sons e estilos de vida.“Vários segmentos curtem, como o pessoal do metal, do skate e do surfe, os motoqueiros e o pessoal dos carros antigos”, conta Barreto. “O que fez o Psycho Carnival crescer foi a diversidade de público”, diz.

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