Gazeta recomenda

Dois filmes concorrentes ao Oscar mostram líderes despreparados para o cargo

Os dois filmes, que concorrem em categorias do Oscar de 2019, falam sobre líderes legítimos, mas despreparados para seus cargos

  • Luiz Gustavo Vilela, especial para a Gazeta do Povo
  • 11/02/2019
  • 19:34
Dois filmes concorrentes ao Oscar mostram líderes despreparados para o cargo Christian Bale e Amy Adams em Vice: Dick Cheney é retratado como alguém sem escrúpulos ou ideologia. Foto: Divulgação.

A arte, entre muitas outras coisas, opera como uma antena parabólica da sociedade, causa e consequência do contexto histórico-cultural. Com o cinema não é diferente – apesar de, pelo esquema de produção, demorar mais para fazer seu comentário. Em tempos de governantes ineptos que se tornam decorativos ao serem engolidos pelo sistema de poder, é natural que filmes reflitam sobre isso e que este discurso encontre ressonância. Por isso, não é estranho que duas produções que não poderiam ser mais diferentes acabam tocando nos mesmos temas e discutindo os mesmos assuntos.

Faz sentido, por isso, a sequência de prêmios a que ambos os filmes, Vice e A Favorita, foram indicados. Incluindo aí o Oscar que, goste-se ou não, é a maior e mais prestigiosa premiação do cinema americano (pode não ser o único que importa, mas acaba sendo o que mais importa pela sua dominância econômica e social). É bastante improvável que qualquer um dos dois leve e estatueta para casa, ao menos nas categorias principais (Bale e Collman possuem lá suas chances), mas as indicações já são suficientes para ampliar a circulação.

>>> Vidro fecha trilogia que M. Night Shyamalan iniciou há 20 anos

É importante lembrar que muitas dessas premiações, o Oscar em particular, possuem um forte caráter autocongratulatório. Diretores, produtores, roteiristas e atores que premiam a si mesmos e suas visões de mundo particulares. Então é natural que sátiras políticas ganhem ressonância cultural o suficiente para chegarem lá. Se, no processo, tivermos um Vice para cada A Favorita, todos ganhamos.

O mundo, parecem pensar estes realizadores, foi sequestrado por líderes legítimos, posto que eleitos, porém inadequados para o cargo. Estão lá atendendo a interesses de algum grupo, seja pelo reforço ideológico, seja pelo poder econômico, ou ambos. Esta caterva estaria manipulando o ocupante do cargo, um mero fantoche. Vice retrata acontecimentos de 15 anos atrás. A Favorita, de 300 anos atrás. A história escrita hoje é a matéria-prima do cinema dos próximos anos.

Crítica: Vice

O que torna em parte Vice um tanto confuso é a quantidade de temas que atravessa a trajetória de Dick Cheney (Christian Bale), controversa figura política dos EUA, que se tornou o vice-presidente da gestão de George W. Bush (Sam Rockwell), em 2001. O filme, que está em cartaz em Curitiba, busca fazer uma relação entre a política de bastidores da era Nixon, nos anos 70, até o atual governo americano, com foco nas administrações do Partido Republicano. Faz também um retrato de uma figura sem atrativos físicos ou intelectuais – nas palavras do próprio roteiro – que se tornou o personagem central da mais poderosa nação do planeta. E, claro, desfila uma crítica mordaz a um sistema que se permite ser sequestrado quando quem assume o poder é alguém inapto e desinteressado.

Cheney é retratado como um esperto aproveitador sem escrúpulos ou ideologia. Ainda jovem e inexperiente, ele chega a perguntar ao seu então mentor, Donald Rumsfeld (Steve Carrell), “mas no que acreditamos?”, e recebe apenas uma gargalhada como resposta. Sua habilidade: reconhecer quando as condições eram ideais para que ele pudesse assumir o controle. Estes momentos decisivos são ilustrados pelo diretor Adam McKay com uma torre de xícaras que pode cair para qualquer lado, resgatando a estratégia de seu filme anterior, A Grande Aposta (2015) de dar senso à narrativa através de metáforas visuais e edição ágil.

Apesar de atravessar as quatro décadas da carreira política de Cheney, o coração do filme está em sua passagem pela Casa Branca. Bush filho, mais interessado em superar o pai do que no dia a dia político, cede em tudo o que seu vice lhe pede. E o que ele pede é poder. Em troca, mantém sua privacidade, podendo, argumenta o filme, preservar a filha mais nova de escrutínio público devido à sua homossexualidade, por exemplo. Vice não é nem um pouco sutil em determinar que Cheney foi o grande arquiteto da invasão ao Iraque, que levou à criação do Estado Islâmico, grupo radical que hoje opera em partes da Síria e outros lugares no Oriente Médio. A guerra teria sido motivada por petróleo. Logo, por dinheiro.

Por isso é curioso que McKay abrace, ao longo do filme, um estranho mea culpa, permitindo que Cheney se justifique e tenha um insuspeito alívio de consciência. Suas atitudes teriam sido motivadas por ideologia, afinal. O povo americano estaria mais seguro e ter uma figura abjeta como ele no poder seria um preço pequeno a se pagar por isso. Os fins justificam os meios, como na máxima maquiavélica. O problema é que passamos por duas horas em que os “fins” eram a manutenção do poder e lucros bilionários. Muito longe de qualquer sentimento que se assemelhe a patriotismo. Vice se recusa a apontar a hipocrisia, deixando que Cheney converse diretamente com o público, abraçando cinematograficamente seu discurso.

Crítica: A Favorita

A liderança legítima, porém inapta e portanto manipulável, também está no centro de A Favorita, de Yorgos Lanthimos, que estreou nos cinemas na última semana. No poder está a rainha Anne da Inglaterra (Olivia Collman), mas quem a controla é sua mais antiga e próxima amiga, Lady Sarah Marlborough (Rachel Weisz). Além da influência direta, ela também cuida de toda a burocracia do reino enquanto a Rainha fica em seu quarto se recuperando de crises de gota e cuidando de seus coelhos. Este arranjo é ameaçado com a chegada de Abigail (Emma Stone), uma empregada do palácio que logo demonstra bastante habilidade na arte da manipulação.

O debate do poder como um fim em si ou como um meio para viabilizar a ideologia, que aparece em Vice como um acidente, um subproduto de uma tentativa malfadada de imparcialidade, em A Favorita ganha o centro da discussão. Lady Sarah possui um projeto de poder e de país. Seu inimigo, como o dos outros políticos na corte da Rainha, é a França, que deve ser vencida a qualquer custo, não importando se os impostos dos camponeses dobrem ou se os nobres se endividem. Abigail, por sua vez, é movida por um intenso senso de autopreservação, manipulando a todos para não sofrer mais abusos. Quanto mais próxima do poder, mais segura estará, pensa. Elas duas encarnam a contradição de Dick Cheney que Adam McKay não soube conciliar em Vice.

A diferença na abordagem entre os dois filmes não poderia ser maior, considerando a força da temática que conduz as duas tramas. Tudo o que parece acidente e desleixo no filme de McKay – que funcionavam muito bem nas comédias com Will Ferrell, como O Âncora (2004) – é intencional e poderoso em Lanthimos. O diretor grego segue demonstrando o apurado senso estético de seus trabalhos anteriores, como A Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), trocando apenas o apreço pelo surrealismo por algo mais delicado, uma espécie de realismo afetado.

A estilização, pesada em ambos os filmes, aponta para caminhos diferentes. McKay usa os mesmos cacoetes de A Grande Aposta, dando um ar pop-videoclíptico para algo que seria absolutamente banal e enfadonho. Diferente do que acontece no filme anterior, em Vice o estilo quebra o ritmo e distrai ao invés de ajudar no mergulho. Lanthimos, ao contrário, sobrepõe as imagens dessas mulheres buscando rimas visuais poéticas que reforçam as relações entre elas. Política, cinema e sexo se tornam uma mesma coisa em A Favorita.

Tags

8 recomendações para você

Deixe sua opinião

Mais lidas do Guia

Quem tem

tem descontos

Garanta já seu desconto