“Por que tão sério?”, usaria a clássica frase do Coringa para rebater as críticas que tem sido feitas ao novo filme do icônico personagem dos quadrinhos que chega nesta quinta-feira (03) aos cinemas brasileiros.

Dirigido por Todd Philips, Coringa ganha uma nova explicação da sua vida na pele do ator Joaquin Phoenix. Mesmo antes do lançamento, a produção foi muito elogiada, ganhando o Leão de Ouro na última edição do Festival de Cinema de Veneza.

Com pré-venda de ingressos enorme, o longa deve ultrapassar o recorde de estreias de outubro de Venom, que arrecadou US$ 80 milhões no primeiro fim de semana no ano passado [via Deadline]. Ele ainda marcará a maior estreia em número de salas na história de outubro, com exibição em mais de 4000 cinemas.

Mesmo com tanta expectativa, Coringa está sendo alvo de duras críticas por, supostamente, glorificar a violência e o medo de que possa inspirar os jovens a cometer os mesmos atos retratados na tela.

Ambientado nos anos 1980, o filme de Phillips se concentra puramente na história do Coringa, mostrando a transformação de Arhtur Fleck, um palhaço e aspirante a comediante, que se transforma num psicopata. A sua satisfação e o sentido da sua vida se encontram na loucura. Essa é sua forma de existir.

Além de perder mais de 20 kg para viver o personagem, Phoenix pesquisou sobre narcisismo e criminologia e se inspirou em Buster Keaton, Ray Bolger e no espantalho do Mágico de Oz. Ele se tornou o Coringa por inteiro, a atuação é impecável.

Uma das principais cenas foi feita no improviso. Fleck precisava aparecer no banheiro após alguns assassinatos, procurando um lugar para esconder sua arma. O diretor e ator não gostaram do resultado e, enquanto debatiam, Phillips colocou para rodar uma música ainda inédita da trilha sonora. Phoenix começou a dançar e, com apenas um câmera na sala - e uma equipe de 250 pessoas fora, os esperando, eles gravaram uma das cenas mais lindas do filme.

O filme não fala de um dia ruim, mas de uma sociedade ruim, capaz de destruir sonhos e pessoas. Capaz de transbordar todos os tipos de brutalidade. Desemprego, recessão econômica e um clima abrasivo, tenso nas ruas. Uma cidade que facilmente pode ser confundida com um esgoto a céu aberto. Não por acaso, há uma infestação de ratos, este é o momento de Gotham no nascimento do Coringa.

Talvez o grande ponto é que, não é possível ir ao cinema sem se identificar com o personagem problemático. Seja pela dificuldade na vida, pela história ou, simplesmente, por se dar conta que em algum momento você mesmo já fez mal a alguém, sem ter ideia do tamanho da consequência que isso poderia gerar. Não é um filme que te faz sair do cinema feliz.

Coringa e Scorsese

Outra comparação óbvia, usada até na divulgação oficial, coloca o longa da DC como herdeiro de Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982), dois dos melhores trabalhos de Martin Scorsese, ambos sobre melancólicos atormentados e entregues a delírios de violência. A participação de De Niro como um comediante (assim como em Rei da Comédia), e um flerte com a cena clássica do ator falando com ele mesmo, como em Taxi Driver, é o que chega mais perto de referência dos dois trabalhos – além de uma Nova Iorque assolada por desgraças e um mundo do crime. Para ser Scorsese falta muito, mas é um belo toque no filme para os fãs do cineasta norte-americano.