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Festival Remaster reúne pérolas do cinema brasileiro

Festival vai exibir oito filmes nacionais produzidos entre 1960 e 1990, em cópias com qualidade digital, a partir de quinta-feira (20)

  • Anderson Gonçalves
  • 19/09/2018
  • 14:16
Festival Remaster reúne pérolas do cinema brasileiro Vidas Secas, considerado um dos melhores filmes brasileiros da história, vai abrir o festival. Foto: divulgação

Oito filmes importantes da cinematografia brasileira, em versões remasterizadas, vão ganhar as telas de cinema na próxima semana. O Festival Remaster, que acontece a partir de quinta-feira (20) em sete cidades, inclusive Curitiba, vai apresentar produções de diferentes gêneros, lançadas entre as décadas de 1960 e 90. Em comum, as obras têm o fato de representarem momentos importantes do cinema nacional e trazerem consigo reflexões sobre a história política, social e cultural do país.

Fazem parte do festival os seguintes filmes, em cópias com qualidade digital: Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, O Homem da Capa Preta, de Sergio Rezende, República dos Assassinos, de Miguel Faria Jr., Luz Del Fuego, de David Neves, Vai Trabalhar, Vagabundo!, de Hugo Carvana, Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias; e os documentários Os Doces Bárbaros, de Jom Tob Azulay, e Carmen Miranda – Banana is my Business, de David Meyer e Helena Solberg. As sessões acontecem entre os dias 20 e 26, sempre às 15h30 e 19h30, no Espaço Itaú. A partir de 8 de outubro, os filmes serão exibidos no Canal Brasil.

Carmen Miranda Banana is my Business festival remaster

O Festival Remaster é uma iniciativa da Afinal Filmes, produtora que também trabalha com restauração de películas. Segundo um dos sócios, Alexandre Rocha, a ideia nasceu da paixão pelo cinema, aliada à preocupação com a memória cinematográfica. “Percebemos que há um universo de filmes que uma geração inteira de cinéfilos não teve oportunidade de ver com qualidade, muito menos na tela grande. Além de dar essa oportunidade, também esperamos chamar a atenção para a necessidade de preservação, já que tem muitos filmes importantes que estão apodrecendo”, afirma.

A escolha dos títulos, segundo Alexandre, procurou aliar qualidade artística e apelo popular. “Buscamos títulos que fizessem um meio de campo entre o filme de autor, mais intelectualizado, e o diálogo com o grande público, filmes que tivessem relação com o cotidiano”, explica. A intenção dos realizadores é que essa seja apenas a primeira edição do festival e que, nos próximos anos, mais filmes sejam restaurados e exibidos.

Seleção de peso

Conheça os oito filmes que serão exibidos e sua importância para a cinematografia nacional.

Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos

Dia 20, 15h30 e 19h30

Simplesmente um dos melhores e mais importantes filmes da história do cinema brasileiro. Adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos, foi uma das obras precursoras do Cinema Novo, movimento que revolucionou a cinematografia nacional nas décadas de 1960 e 70. Com uma impactante fotografia preto-e-branco, o filme de Nelson Pereira dos Santos mostra a saga de um casal com os dois filhos e uma cachorrinha pelo sertão nordestino, enfrentando a seca em busca de uma vida melhor na cidade grande. “[O filme é] tão absoluto, tão desesperançoso que é não somente um estado de ser, mas também algo tão incompreensível (para alguém que não conhece a realidade descrita) como outra dimensão no tempo”, escreveu o crítico Vincent Canby, no New York Times. Vidas Secas venceu o prêmio OCIC no Festival de Cannes de 1964 e foi eleito o terceiro melhor filme brasileiro de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), atrás de Limite, de Mário Peixoto, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

O Homem da Capa Preta (1986), de Sergio Rezende

o homem da capa preta

Dia 21, 15h30 e 19h30

Tenório Cavalcanti foi um dos políticos mais controversos da história do Rio de Janeiro. Migrante nordestino, se instalou em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, onde elegeu-se vereador e, posteriormente, deputado na década de 1950. Com uma atuação magistral de José Wilker (falecido em 2014), o filme recria a trajetória do político que era querido pela população, mas não poupava métodos violentos, inclusive andando sempre de posse de uma metralhadora, apelidada por ele de “Lurdinha”. “É um filme que, mesmo depois de tanto tempo, ainda fala de problemas atuais. O populismo, uma praga da qual a gente não se livra, continua sendo um traço da sociedade brasileira. O político que cria um personagem meio teatral ainda está presente, se veem alguns por aí. E a violência, que, infelizmente, continua latente no meio político. Na Baixada Fluminense vários políticos morreram assassinados, é um lugar onde a linguagem da violência ainda impera”, afirma o diretor Sergio Rezende.

Os Doces Bárbaros (1977), de Jom Tob Azulay

os doces bárbaros festival remaster

Dia 22, 15h30 e 19h30

Era para ser apenas um documentário musical, registrando uma turnê especial inédita de quatro grandes artistas brasileiros. Mas tornou-se bem mais que isso, um documento importante da MPB e do período da ditadura militar. Em 1976, os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa se reuniram em uma turnê comemorativa aos dez anos de carreira, dando ao grupo o nome de Doces Bárbaros. O diretor Jom Tob Azulay se dispôs a registrar os shows e bastidores, mas acabou presenciando a prisão de Gilberto Gil e um outro músico por porte de maconha. O julgamento, o encaminhamento dos dois a uma clínica de reabilitação e, por fim, a retomada da turnê são acompanhados de perto. “Com os acontecimentos, acabou ganhando dimensões de filme de ficção, porque o show, em vez de transcorrer de forma rotineira, acabou ganhando aspectos dramáticos”, disse o diretor quando do lançamento do DVD, em 2004. Foi a primeira vez que o documentário foi disponibilizado em sua versão integral, já que, quando do lançamento nos cinemas, em 77, sofreu cortes da censura.

República dos Assassinos (1979), de Miguel Faria Jr.

Dia 23, 15h30

Antes de se tornar um dos mais conhecidos autores de novelas da Rede Globo, Aguinaldo Silva foi escritor de romances policiais, cuja inspiração veio de sua experiência como repórter. Uma dessas obras é República dos Assassinos, inspirado na história real de Mariel Mariscot, um dos mais conhecidos integrantes do “Esquadrão da Morte”, grupo de policiais que matava bandidos por conta própria no Rio de Janeiro. O personagem é interpretado por Tarcísio Meira e no elenco estão outros nomes de peso como José Lewgoy, Sandra Bréa, Anselmo Vasconcelos, Tonico Pereira e Ítalo Rossi. “O filme sintetizou muito bem nossa relação com a violência institucionalizada e banalizada, e toca numa ferida contemporânea: a discussão sobre a desmilitarização da polícia e seus efeitos”, destacou em um texto a escritora e crítica de arte Bianca Dias. O filme é um dos principais exemplares de um gênero popular na década de 70, o cinema policial nacional, que mesclava problemáticas do Brasil à influência dos filmes de ação de Hollywood.

Luz Del Fuego (1982), de David Neves

Dia 23, 19h30

A história da vedete Dora Vivacqua, celebridade da noite carioca nas décadas de 1940 e 50, é digna de um bom roteiro cinematográfico. Nascida em uma família de intelectuais e políticos, ela enveredou pelo teatro de revista e causou furor ao protagonizar espetáculos nos quais dançava quase nua, com duas cobras sobre o corpo. Sucesso de público e alvo da ira dos conservadores, ela propagou o naturismo, defendeu direitos das mulheres e chegou a tentar fundar um partido político. Acabou morrendo assassinada aos 50 anos. Lucélia Santos, que interpretou a vedete e ganhou prêmios por sua atuação, afirmou em 2011, em entrevista à TV Brasil, que o papel foi “um dos mais interessantes” que já fez. “Eu era muito novinha, não tinha as características para o papel. Mas eu sabia que quem escolheria a atriz seriam as cobras. No primeiro contato me entendi com elas, ganhei o papel e foi um marco na minha carreira”, contou a atriz. À época do seu lançamento, o filme gerou polêmica por conta das numerosas cenas de nudez e sexo.

Carmen Miranda – Banana is my Business (1995), de David Meyer e Helena Solberg

Dia 24, 15h30 e 19h30

Carmen Miranda é um ícone da cultura brasileira, conhecido não apenas no Brasil, mas fora dele. Afinal, foi a primeira artista a sair do Brasil para brilhar nos palcos da Broadway e em Hollywood, na década de 1930. Ainda que sua trajetória tenha sido abordada em diversas produções, nenhuma se aprofundou tanto como essa coprodução Brasil-Estados Unidos. Para realizar o documentário, foi feita uma pesquisa exaustiva em cinematecas, acervos de fãs e da família, além de tomados vários depoimentos. Trechos de filmes em preto e branco estrelados pela cantora foram adquiridos pela produção, que narra cronologicamente a vida da cantora, inserindo sequências encenadas no meio do material documental. “Essa preocupação, digamos, conceitual, é um traço de inteligência, que faz a diferença. O filme não é um amontoado de fatos e imagens. Tem um eixo, uma direção, uma tese, sem ser frio como um teorema”, escreveu, à época do lançamento, o crítico Luiz Zanin Oricchio. Curiosidade: o filme foi lançado primeiramente nos Estados Unidos.

Vai Trabalhar, Vagabundo! (1973), de Hugo Carvana

vai trabalhar vagabundo festival remaster

Dia 25, 15h30 e 19h30

Poucos filmes conseguiram capturar tão bem o conceito de malandragem carioca como essa comédia, dirigida e protagonizada por Hugo Carvana. Em sua estreia na direção, ele interpreta Secundino, malandro carioca que acaba de sair da prisão e quer aproveitar a vida no Rio de Janeiro, com direito a tudo que a cidade oferece: botequins, mulheres, apostas, trambiques e gafieira. Seu grande objetivo, contudo, é promover aquele que é o maior confronto de sinuca da história, entre seus amigos Babalu (Nelson Xavier) e Russo (Paulo César Pereio). “O carnavalesco em Vai Trabalhar, Vagabundo! não está apenas na superfície, no imediatamente visível. Está na estrutura. Da cena à estrutura que organiza a cena, tudo no filme se compõe como uma fantasia. Como máscaras, como caricaturas, talvez nem tanto de personagens reais do cotidiano do Rio de Janeiro, mas de um personagem criado pelo dia a dia da cidade”, resumiu o crítico e cineasta José Carlos Avellar, falecido em 2006. O filme ganhou uma sequência em 1991, mas sem o mesmo sucesso do primeiro.

Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias

Assalto ao Trem Pagador festival remaster

Dia 26, 15h30 e 19h30

No início da década de 60, o cinema brasileiro vivia um momento de transição. As chanchadas perdiam força e muitos cineastas viam a necessidade de trocar o humor ingênuo pela crítica social. Ao lado de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Assalto ao Trem Pagador deu o pontapé inicial no movimento que logo iria desembocar no Cinema Novo. O roteiro se baseou em um episódio real, o roubo de 27 milhões de cruzeiros de um trem postal, em 1960, que durante muito tempo foi o maior assalto da história do Brasil. Mas, ao invés de apenas recriar o episódio, Roberto Farias explorou os dilemas dos assaltantes decorrentes do roubo. “É em grande parte pela caracterização do Brasil, do Rio, da gente da favela em contraste com os ‘do asfalto’ que o filme do diretor Roberto Farias se destaca com tanta desenvoltura no panorama do filme policial brasileiro. E mesmo no conjunto da obra do realizador”, destacou o crítico Inácio Araújo, da Folha de S.Paulo. O elenco tem um jovem Reginaldo Faria e o inesquecível Grande Otelo.

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