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7 bares tradicionais que todo curitibano precisa conhecer

Sem reformas, sem hambúrguer, sem mudar cardápio: bares históricos assistem a uma renovação do público graças ao pensamento quase analógico de “não mexer em time que está ganhando”

  • Carlos Coelho
  • 13/06/2017
  • 12:12
7 bares tradicionais que todo curitibano precisa conhecer Bar Stuart, o bar mais antigo do Paraná, desde 1904, frequentado por varias personalidades da politica, artistas, jornalistas, etc. Foto: Pedro Serapio

“O Cícero vai dar risada se souber que estamos aqui”, diz a senhora, de seus 60 e poucos anos, para o marido, enquanto se acomoda com elegância na mesa à entrada do salão estacionado no tempo. Há três ou quatro décadas, possivelmente ali, o mais célebre poeta curitibano tenha despejado seu sarcasmo em um guardanapo de papel. Quem lhe faz companhia hoje, porém, são dois outros senhores, boina e casaco de lã, e um grupo de quatro jovens adultos, na faixa dos 30, que destoam levemente da casa entulhada de fotos antigas e história. É quarta à noite. Só mais uma das milhares pelas quais passou o velho Stuart. Provavelmente, só mais uma das muitas pelas quais ainda vai passar.

“Minhas duas grandes alegrias na vida: quando abri meu primeiro bar e quando me livrei dele”, disse certa vez um amigo. Era brincadeira, claro, mas ele exemplificou como ninguém a vida dura de quem escolhe a boemia como escritório. Nascer para morrer em relativamente pouco tempo é quase uma lei não escrita nesse ramo. Não para o Bar Stuart. Ele está em um seleto rol de casas que incrivelmente resistem dando uma pedalada no “atualize-se ou desapareça”. Ele e alguns poucos pares não estão preocupados com páginas divertidas no Facebook ou anúncios; servem mais ou menos a mesma coisa desde a Pangeia; e, reforma, só se for para o azulejo não desprender da cabeça da clientela. Ainda assim (ou melhor, talvez por isso) assistem a seu público se renovar, enquanto ainda acolhem aqueles que passaram algumas das melhores horas de suas vidas esfriando a barriga nos balcões de mármore e fórmica.

Uma das poucas mudanças no Stuart é que agora tem wifi, apesar de a placa dizer o contrário (“Não temos wifi, conversem entre si”). “O pessoal dá risada [do aviso]. Mas tem que ter [internet sem fio], né? É que hoje em dia o público jovem gosta disso”, sacou logo Nelson Ferri, que comanda a casa há cerca de uma década. E os jovens estão lá. Gostam da internet, mas também do pernil com verde, da cerveja gelada e da aura histórica do bar mais antigo de Curitiba ainda em funcionamento.

Veja mais sobre o Bar Stuart:

Ferri relembra a maior parte dos ‘causos’ do Bar Stuart ainda como frequentador, já que ele é só um pedacinho nessa história. Na entrada, a placa que diz “desde 1904” está errada. O bar-restaurante já funcionava em 1900 em seu primeiro endereço, na Comendador Araújo, onde o casal de suíços que empresta seu nome ao estabelecimento resolveu inaugurá-lo. Depois foi para a Saldanha Marinho até ganhar acolhida na esquina da Alameda Cabral com a Praça Osório, já nos anos 1930. Na época em que Curitiba era pouco maior que um Fiat Uno, a clientela não se importou com a distância e acompanhou cada migração. “Todos os governadores passaram por aqui. Diz uma história que o Colégio Positivo foi fundado em uma dessas mesas. O Paulo Leminski escrevia no bar – ainda temos a mesinha dele [aquela citada no começo da reportagem]”, conta o proprietário.

“Quando o [Jaime]Lerner estava aqui, o [Roberto] Requião não entrava. E vice-versa”, diz – era a batalha pelos testículos.

Eu diria que passa longe de ser uma experiência gourmet sair de casa para comer testículos de touro. Eles são a antítese disso, na verdade (é um troço borrachudo e tão bonito quanto se pode esperar de testículos bovinos). Mas, por alguma razão, fazem a alegria da clientela do Stuart há décadas, seis delas pelo menos. Os 10 quilos colocados em estoque frequentemente voam, garante Ferri. É coisa para caramba. Mas, se você perder, no hay problema: eles não devem sair do cardápio tão cedo, já que a carta da casa está quase intacta há uma vida (com acréscimo de uma coisinha ou outra).

“Uma coisa que acredito que ajuda a tornar estes lugares atrativos é não aderirem a modismos. Todo mundo tem a necessidade de se vender, claro. Mas esses caras não entraram nessa de hambúrguer, sabe? Nada contra o hambúrguer, mas eles têm outras formas de se mostrar”, palpita o ilustrador e artista plástico Guilherme Caldas, uma das mentes do mapa (e blog) Curitiba Baixa Gastronomia, que valoriza justamente lugares de qualidade e na contracultura gourmet – um manifesto calcado a bolinho de carne e Brahma de garrafa.

E meio que sempre foi assim. Doutora em história, a socióloga e professora Maria do Carmo Rolim escreveu em um extenso trabalho sobre bares e restaurantes de Curitiba nas décadas de 1950 e 1960: “Vivia-se numa época em que predominavam as relações pessoais e elas influenciavam sobremaneira na divulgação da ‘especialidade’ da casa. Exatamente por esse motivo é que se entende que a divulgação “gratuita” tem a conotação de troca e não de gratuidade, pois radialistas ou jornalistas frequentavam os locais, não pagavam, e, em troca, publicavam, comentavam, elogiavam aquele determinado estabelecimento”. Hoje, o boca a boca segue a todo vapor, só que de forma menos interesseira.

Aliás, o caldo grosso do Stuart, bem como de outros bares parecidos e que ainda resistem ao tempo, sempre foi o de formadores de opinião: artistas, repórteres, cronistas e políticos.  “Muitos jornalistas faziam suas matérias no Bar Stuart”, conta Maria do Carmo. Ainda é assim hoje. Nota de rodapé: parte dessa reportagem também saiu de lá.

Enquanto esvaziava uma garrafa de cerveja, refleti sobre o painel com carcaças de caranguejo – algo entre Bienal e Romero Britto. A decoração, logo na entrada do Bar do Ligeirinho, acima da porta, chama tanta atenção quanto o respeitável conjunto de fotos antigas nas paredes. O endereço na Carlos de Carvalho é “boemia punk-velho”, termo de Guilherme Caldas. Não tem requinte vintage do Stuart. É bem mais simples: balcão, mesinhas, prateleira empoeirada com garrafas de Campari. Mas a alma é a mesma. Ligeirinho, ou Ronald Abreu, por batismo, foi garçom da casa na Alameda Cabral na década de 1940. Saiu para abrir seu próprio negócio. Levou os testículos. E uma porção de outros pratos.

Veja mais sobre o Bar do Ligeirinho:

Não é muito diferente do Maneko’s, de Manoel Alves, ex-garçom que tentou (e conseguiu) a sorte saindo do Stuart. Mais ousado, ele abriu a casa em 1988 e, alguns anos depois a levou para a frente do agora ‘concorrente’. Lá, passou a servir carne de rã, bolinho de carne, pratos do dia e tudo mais que reza a cartilha dos botequeiros. Os preços ainda expostos no painel furadinho. Mais tradicional, só se ainda cobrasse em cruzados novos.

Veja mais sobre o Maneko's Bar:

“No fundo, a identidade de cada bar e restaurante era a identidade daqueles que frequentavam tais locais e que pode ser reinterpretada como espaços da boêmia, das famílias, dos políticos, dos jornalistas, dos esportistas, dos amigos; espaços determinantes dos vários níveis de sociabilidade; espaços públicos considerados extensões dos espaços privados, pois aí a vida privada de muitos encontrava um prolongamento, um eco, um apoio”, teoriza Maria do Carmo.

Se hoje tais bares não se dobram ao hambúrguer e cerveja especial, como diz Caldas, foram símbolos da inovação gastronômica de uma época. “Todos estes pratos mais tradicionais são frutos de uma modernização pela qual o Brasil estava passando. À época [mais especificamente décadas de 1950 e 1960], eram pratos muito modernos”, concluiu a professora em sua pesquisa. Até o cachorro-quente.

Comer um cachorro-quente era o que de mais avant-garde você poderia fazer nos anos 1940. Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores historiadores do Brasil, reconstituiu certa vez o caminho do lanche até o Brasil. Ele veio para cá no auge da Segunda Guerra, quando soldados estadunidenses que serviam em bases militares no litoral do Brasil ajudaram a popularizar o pão com vina (no começo, linguiça mesmo). Se ajudava os militares a trocar as armas pelo catchup, por aqui, incitou uma nova batalha.

Os bares Mignon e Triângulo dividem parede, logo na primeira quadra da Rua XV, mas são separados por uma velha rixa, agora um pouco amortecida pelos anos. “Ambos reivindicam terem trazido o cachorro-quente para Curitiba. Sempre existiu essa rivalidade entre eles”, conta Maria do Carmo. E não é só isso: cada qual diz ter o melhor pernil com verde da cidade (um sanduíche de porco coberto por quase infinitas rodelas de cheiro-verde – vem daí seu nome). “Pernil com verde é uma maravilha, mas vá no do Bar Mignon”, me alertou certa vez Guilherme Rodrigues, colunista de vinhos aqui da casa e um dos maiores entendedores de gastronomia na região. “Eu sempre fui mais o cachorro-quente do Triângulo”, contrapôs, em um momento diferente, Carlos Zanquiel, músico que diz “viver intensamente” a boemia curitibana.

Os bares são, porém, quase gêmeos: estreitos, compridos, chapa à mostra, azulejos coloridos. Também dividem as mesmas mesas e cadeiras na Rua XV, no provavelmente cartão-postal mais manjado da cidade. O que os diferencia talvez seja a ousadia na fachada, neste quesito, vencida pelo Triângulo: desde os anos 1940, tem dois luminosos com um triângulo e, dentro dele, o desenho de um cachorro que apaga e acende se intercalando com a palavra quente – o que levou muita gente a sequer saber que o lugar tinha um nome que não “Cachorro” .

Veja mais sobre o Bar Mignon:

É bem verdade que hoje as casas perderam um pouco do glamour de outrora. Parecem até um pouco acuadas com o Burger King geralmente bem mais apunhado de gente do que os velhinhos a sua esquerda. Mas foi ali que a boemia de Curitiba se formou. “Mignon e o Triângulo eram os locais que permaneciam abertos até de madrugada, possibilitando a frequência dos boêmios e dos jornalistas. Os demais bares e restaurantes funcionavam até as 22 horas, no máximo. Esse detalhe demonstra que Curitiba tinha poucas opções noturnas no que diz respeito à alimentação”, conta Maria do Carmo. 

Veja mais sobre o Bar e Restaurante Triângulo:

Além dos dois, havia (e ainda há) um terceiro abrigo para os notívagos da capital.  “Cada cidade precisa ter uma alma; a nossa é o Bar Palácio”, escreveu quem primeiro ocupou a cadeira número 1 da Academia Paranaense de Letras, o jornalista e escritor Valfrido Piloto. Há que se entender por quê. A casa inaugurou nos anos 1930 e na década de 1940 passou a abrir entre das 18 às 7 horas da manhã. Com uma regra: "mulher desacompanhada não entra". A medida é um tanto machista com os olhos de hoje, mas tinha como justificativa evitar a prostituição na casa. Assim, a estrela da noite continuaria sendo o Churrasco Paranaense, quase um patrimônio imaterial da cidade.

Veja mais sobre o Bar Palácio:

Ao longo dos anos o horário de funcionamento enxugou. Hoje, para se aquecer na grande grelha ao fundo do salão, é melhor chegar até às 3 da manhã (nos fins de semana). O público também. Mulheres sozinhas, acompanhadas, senhoras e jovens têm lugar garantido no salão.

“Sei lá porque, mas um dia, o dono chegou e disse: ‘vamos quebrar isso aqui tudo’. O pessoal quebrou banheiro, vidro. Derrubaram quase tudo”, relembra às gargalhadas Paulo Teixeira, guitarrista da Banda Blindagem, sobre um dos momentos icônicos que sua galera viveu no Bife Sujo. No fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980, era praxe. Lá, Paulinho e Ivo Rodrigues [vocalista da Blindagem] encontravam Leminski e a rapaziada do circuito cultural para bater papo, compor boa parte das músicas que entraram no primeiro disco da banda e comer um Bife Sujo, um pedaço de alcatra com as marcas da grelha, que ‘sujavam’ a carne [há outras versões para o nome do bar, mas esta é a oficial]. “Ali era o encontro dos loucos. Toda aquela galera da contracultura. Era o lugar para a gente encher a cara, falar bobagens e aproveitar as ideias. O Paulo [Leminski] era muito rápido. Quando tinha uma ideia, já punha no papel”, conta o guitarrista.

O Bife mudou de dono e, mais tarde, de endereço após a quebradeira. Em 1981, quando o antigo proprietário deu um ultimato direto e reto, “amanhã não tem mais Bife Sujo”, César Wisniewski, Cesinha, funcionário há alguns anos, assumiu a bronca. Ele não quis deixar a boemia curitibana órfã. Eram outros tempos, bem mais divertidos.

Há cerca de 10 anos, não deu para segurar. Cesinha viu o movimento noturno rarear pela “falta de segurança na região” e pela “lei que proíbe fumar em estabelecimentos fechados”. O empresário fechou as portas para a noite. Hoje, só abre na hora do almoço. O prato que fez o nome da casa continua no menu, bem como uma respeitada feijoada às quartas e sábados. Mas uma parte do Bife morreu ali. E disso, Cesinha admite que sente falta. “Tem bastante gente jovem que vem, quer saber a história do restaurante, quer saber do Ivo, do Leminski. Nosso acervo de fotos e caricaturas é bom, então isso desperta a curiosidade. O restaurante vai longe por causa desta nova geração que está frequentando”, diz.

Veja mais sobre o Bife Sujo:

É o que faz o dono de bar considerar reabrir a casa nas noites. “Esse pessoal que está vindo agora com certeza viria tomar uma cervejinha à noite. Estamos escutando uma conversa de que uma companhia de polícia será instalada na região. Se isso acontecer, vou reabrir o Bife à noite, trazer de volta as porções, o sanduíche de bife”, projeta.

Não é certo o revival. Vale uma cruzada de dedos. Em um cenário em que fechar é muito mais fácil do que abrir, os velhinhos seguem firmes e fortes. “Se acabar com esses bares, acabou Curitiba. Fazemos as malas e vamos embora”, brinca Guilherme Caldas. “Eles tem essa aura de eternidade, mas ao mesmo tempo precisamos lembrar que esses lugares existem. Temos esses lugares como garantidos, mas precisa ir neles”, diz. O tom é de militância. Ele está certo. Não é só comida e bebida. Melhor encará-los como patrimônios da cidade. Leminski, uma vez disse (talvez em sua mesinha na entrada do Stuart): “O Rio é o mar, Curitiba é o bar”.

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